Conteúdo nas redes sociais: como fazê-lo com estratégia?

Conteúdo da aula

1. Ter redes sociais não é o mesmo que ter uma estratégia

Existe uma diferença significativa entre:

ter redes sociais

e

ter uma estratégia para redes sociais.

Ter redes sociais significa que a empresa possui uma conta.

Talvez:

  • publique algumas vezes por semana;
  • responda a comentários;
  • produza Reels;
  • faça Stories;
  • possua um calendário editorial;
  • acompanhe algumas métricas.

Uma estratégia começa noutra pergunta:

Que função deve esta rede social desempenhar no percurso do nosso cliente?

Esta pergunta muda completamente a forma como o conteúdo é planeado.

Porque uma empresa não precisa simplesmente de estar “ativa”.

Precisa de saber:

  • quem pretende alcançar;
  • que mensagem quer repetir;
  • que comportamento pretende estimular;
  • que formatos fazem sentido;
  • que função cada conteúdo desempenha;
  • e para onde quer conduzir as pessoas.

Caso contrário, as redes sociais tornam-se numa atividade curiosa:

Passamos horas a criar conteúdo para gerar engagement.

Depois, quando conseguimos engagement, não sabemos exatamente o que fazer com ele.

2. Primeiro princípio: as redes sociais são canais

Instagram não é uma estratégia.

TikTok não é uma estratégia.

LinkedIn não é uma estratégia.

Facebook não é uma estratégia.

São canais.

São espaços nos quais a empresa pode:

  • captar atenção;
  • distribuir ideias;
  • interagir;
  • construir familiaridade;
  • demonstrar conhecimento;
  • apresentar provas;
  • criar relações;
  • encaminhar pessoas para um próximo passo.

O erro acontece quando o canal se transforma no próprio objetivo.

2.1. Exemplo: “Precisamos de crescer no Instagram”

Imagine a seguinte conversa:

“Precisamos de crescer no Instagram.”

Porquê?

“Porque precisamos de mais seguidores.”

Porquê?

“Porque sim.”

Excelente.

Já quase estamos perante um plano de negócios.

O crescimento de uma audiência pode ser importante.

Mas precisa de ter uma finalidade.

Por exemplo, a empresa poderá querer:

  • aumentar reconhecimento;
  • criar procura;
  • atrair potenciais clientes;
  • construir autoridade;
  • gerar tráfego;
  • manter uma relação com clientes existentes.

A função vem antes do conteúdo.

Quando sabemos o trabalho que o canal deverá realizar, torna-se mais fácil decidir o que publicar.

3. Nem todas as redes sociais funcionam da mesma forma

Um dos erros mais frequentes consiste em criar uma publicação e distribuí-la exatamente da mesma forma em todas as plataformas.

A reutilização de conteúdo é uma boa prática.

O simples copiar e colar nem sempre é.

Shahbaznezhad, Dolan e Rashidirad analisaram a relação entre:

  • formato;
  • plataforma;
  • contexto do conteúdo;
  • e diferentes formas de engagement.

Os resultados mostram que a plataforma e o formato podem influenciar de forma diferente comportamentos mais passivos ou mais ativos.

A conclusão prática é simples:

O contexto da plataforma importa.

3.1. A mesma ideia pode ser adaptada

Uma ideia pode continuar válida em várias plataformas.

Mas a forma de a apresentar poderá mudar.

TikTok

Poderá exigir:

  • maior rapidez;
  • uma abertura imediata;
  • menos contexto inicial;
  • linguagem mais direta.

LinkedIn

Pode permitir:

  • mais reflexão;
  • contexto profissional;
  • opinião;
  • análise;
  • experiência.

Instagram

A mesma ideia poderá ser apresentada através de:

  • Reel;
  • carrossel;
  • Story;
  • publicação estática;
  • Live.

YouTube

O assunto pode ser desenvolvido durante vários minutos, permitindo:

  • maior profundidade;
  • demonstração;
  • exemplos;
  • contexto.

Não é necessário criar quatro estratégias completamente diferentes.

É necessário:

preservar a ideia e adaptar a execução ao ambiente em que será consumida.

4. Primeira função das redes sociais: atrair novas pessoas

As redes sociais podem ser particularmente úteis para descoberta.

Os sistemas de recomendação podem distribuir conteúdo a pessoas que ainda não seguem a marca.

Neste momento, não é necessário começar com:

“Olá, somos a empresa X, fundada em 2007, e prestamos os seguintes dezassete serviços…”

A pessoa ainda não pediu uma visita guiada ao organograma.

Primeiro é necessário conquistar atenção.

E a atenção começa frequentemente na experiência do público.

4.1. Exemplos de conteúdo de atração

Empresa de contabilidade

“Se tens dinheiro na conta e, mesmo assim, tens medo de pagar uma despesa, provavelmente falta-te uma coisa.”

Clínica

“Se esta dor desaparece durante uns dias e depois volta, o problema pode não ser simplesmente falta de descanso.”

Empresa de marketing

“Se nunca sabes o que publicar, talvez o teu problema não seja falta de ideias.”

Repare:

Nenhum destes conteúdos começa pela marca.

Começam pela realidade da pessoa.

Conteúdo de atração procura provocar:

“Espera. Isto tem a ver comigo.”

5. Segunda função: transformar seguidores em pessoas interessadas

Conseguir um seguidor não significa conseguir um potencial cliente.

Uma pessoa pode seguir uma marca porque:

  • gostou de um vídeo;
  • achou algo divertido;
  • quer aprender;
  • concordou com uma ideia;
  • teve curiosidade;
  • ou simplesmente carregou no botão sem grande reflexão existencial.

Por isso, depois da descoberta, a relação precisa de ser aprofundada.

É aqui que entram conteúdos que ajudam a compreender:

  • o problema;
  • as causas;
  • os erros;
  • as alternativas;
  • a abordagem da marca.

5.1. Exemplo de progressão de conteúdo

Imagine um primeiro Reel:

“Se nunca sabes o que publicar, talvez o problema não seja falta de criatividade.”

Esse conteúdo atraiu a pessoa.

Depois, a marca poderá criar:

“3 razões pelas quais um negócio fica sem ideias de conteúdo.”

Depois:

“Como os problemas dos teus clientes podem alimentar o teu calendário editorial.”

E depois:

“Porque utilizamos pilares de conteúdo.”

A pessoa começa progressivamente a compreender:

  • o problema;
  • a causa;
  • a lógica da solução;
  • e a forma de pensar da marca.

É aqui que o conteúdo deixa de servir apenas para obter alcance.

Começa a construir posicionamento.

6. Terceira função: construir confiança

Nas redes sociais, a empresa não precisa apenas de afirmar que possui competência.

Precisa de a demonstrar.

Dizer:

“Somos especialistas.”

tem pouco poder diferenciador.

Curiosamente, quase todas as empresas parecem ser:

  • especialistas;
  • líderes;
  • inovadoras;
  • apaixonadas;
  • e completamente dedicadas à excelência.

É uma verdadeira epidemia mundial de excelência.

A autoridade torna-se mais credível quando é demonstrada.

6.1. Como demonstrar competência

A marca pode mostrar:

  • como analisa um problema;
  • como toma uma decisão;
  • como funciona o seu processo;
  • um caso;
  • um resultado;
  • uma opinião fundamentada;
  • um bastidor relevante;
  • a resposta a uma pergunta difícil;
  • critérios utilizados no trabalho;
  • erros que procura evitar.

6.2. Autoridade não exige linguagem complicada

Construir autoridade não significa utilizar mais palavras técnicas.

Frequentemente acontece o contrário.

Quem compreende profundamente um tema tende a conseguir:

  • organizar;
  • simplificar;
  • contextualizar;
  • explicar.

Por isso, uma explicação clara pode demonstrar mais conhecimento do que um parágrafo cheio de jargão.

7. Quarta função: gerar interação útil

É importante distinguir diferentes tipos de interação.

Um comentário pode representar:

  • interesse;
  • discordância;
  • humor;
  • identificação;
  • curiosidade;
  • ou simplesmente três emojis de fogo.

Tudo isto conta tecnicamente como engagement.

Mas não significa a mesma coisa.

Peters e os seus colegas propuseram uma abordagem ampla à medição das redes sociais, considerando dimensões como:

  • motivações;
  • conteúdo;
  • estrutura da rede;
  • papéis;
  • interações sociais.

A conclusão prática é que não basta somar:

  • gostos;
  • comentários;
  • partilhas.

É necessário compreender o que essa interação significa.

8. Que interação queremos provocar?

Antes de escrever uma chamada para ação, devemos decidir qual é o comportamento mais útil.

Podemos querer:

  • uma resposta;
  • uma partilha;
  • um conteúdo guardado;
  • uma mensagem privada;
  • uma visita ao perfil;
  • um clique;
  • uma inscrição;
  • uma candidatura;
  • uma compra.

A chamada para ação deve acompanhar a função do conteúdo.

8.1. O problema do “Comenta SIM”

Nem todos os conteúdos precisam de terminar com:

“Comenta SIM se concordas.”

Sobretudo quando não existe nenhuma razão útil para alguém comentar “SIM”.

Esta prática terá provavelmente produzido milhões de comentários.

Não necessariamente milhões de decisões de compra.

Uma chamada para ação deve ser coerente com aquilo que aconteceu antes.

8.2. Exemplo de interação com função

Em vez de perguntar:

“Concordas? Comenta SIM.”

Uma empresa de marketing poderia perguntar:

“Qual destas situações te causa mais dificuldade: nunca ter ideias, não conseguir manter frequência ou não saber se o conteúdo gera resultados?”

Agora a interação também permite:

  • conhecer o público;
  • identificar problemas;
  • gerar novas ideias;
  • segmentar necessidades;
  • iniciar conversa.

O engagement passa a ter função.

9. Quinta função: conduzir para fora da plataforma quando necessário

Uma rede social pode ser o início da relação.

Não precisa de ser o lugar onde toda a relação acontece.

Um percurso poderá ser:

Reel → seguir → consumir conteúdos → visitar página → subscrever newsletter → participar numa aula → comprar.

Outro percurso poderá ser:

LinkedIn → caso de estudo → website → marcação de reunião.

O importante é construir um caminho.

Não é necessário manter a pessoa eternamente dentro da plataforma apenas para melhorar as estatísticas.

9.1. Quando devemos conduzir para outro ponto?

Quando o próximo passo natural consiste em:

  • marcar;
  • comprar;
  • subscrever;
  • descarregar;
  • pedir orçamento;
  • candidatar-se;
  • falar com alguém;

devemos facilitar essa passagem.

Uma rede social funciona melhor quando está integrada com os restantes pontos de contacto.

10. Os conteúdos devem desempenhar funções diferentes

Uma estratégia equilibrada não transforma todas as publicações em vendas.

Também não transforma todas as publicações em educação.

Podemos organizar os conteúdos sociais segundo várias funções.

10.1. Conteúdo de atração

Ajuda novas pessoas a reconhecerem-se numa situação.

Exemplo:

“3 sinais de que estás a publicar sem estratégia.”

10.2. Conteúdo educativo

Aumenta compreensão.

Exemplo:

“Porque é que ter pilares reduz a falta de ideias?”

10.3. Conteúdo de posicionamento

Mostra aquilo em que a marca acredita.

Exemplo:

“Publicar mais não corrige falta de posicionamento.”

10.4. Conteúdo de confiança

Demonstra competência.

Exemplo:

“Como transformámos as perguntas reais dos clientes numa estratégia editorial.”

10.5. Conteúdo relacional

Mostra:

  • pessoas;
  • valores;
  • visão;
  • bastidores relevantes;
  • decisões.

Exemplo:

“Uma decisão que tivemos de tomar ao construir este serviço.”

10.6. Conteúdo de prova

Pode incluir:

  • casos;
  • resultados;
  • testemunhos;
  • demonstrações;
  • exemplos de aplicação.

10.7. Conteúdo comercial

Explica claramente:

  • o que a empresa vende;
  • para quem é;
  • que problema resolve;
  • como funciona;
  • e como avançar.

10.8. Conteúdo de retenção

Ajuda clientes atuais a:

  • utilizar melhor a solução;
  • obter melhores resultados;
  • manter a relação;
  • regressar;
  • recomendar.

11. Os dois extremos que devem ser evitados

O primeiro erro consiste em:

vender em todas as publicações.

Quando tudo termina numa promoção, a relação pode tornar-se excessivamente transacional.

O segundo erro consiste em:

educar indefinidamente e esconder a oferta.

Algumas empresas passam meses a produzir conteúdos úteis.

Depois ninguém percebe:

  • o que vendem;
  • para quem é;
  • como funciona;
  • ou como contratar.

Uma estratégia equilibrada precisa das duas coisas:

valor + clareza comercial.

12. Um post deve transmitir uma ideia principal

Outro erro frequente consiste em tentar aproveitar cada publicação para comunicar tudo.

Num único Reel encontramos:

  • uma introdução;
  • cinco dicas;
  • três erros;
  • duas histórias;
  • uma explicação científica;
  • a descrição dos serviços;
  • uma chamada para ação.

Tudo em quarenta segundos.

Porque aparentemente o público não possui mais obrigações durante o dia.

Quanto mais clara for a ideia principal, mais fácil será:

  • compreender;
  • recordar;
  • transmitir.

12.1. A pergunta da frase principal

Antes de criar o conteúdo, pergunte:

Se a pessoa só se recordar de uma frase, qual quero que seja?

Por exemplo:

“A falta de ideias é um sintoma de falta de estratégia.”

Esta é a ideia central.

Tudo o resto deverá existir para:

  • explicar;
  • provar;
  • exemplificar;
  • contextualizar

essa frase.

13. Hook não é clickbait

Nas redes sociais, é necessário conquistar atenção rapidamente.

Isto torna a abertura especialmente importante.

Mas um bom hook não precisa de enganar.

13.1. Clickbait

Clickbait promete uma coisa e entrega outra.

O objetivo principal é conquistar o clique ou a visualização, mesmo que a promessa não seja cumprida.

13.2. Um bom hook

Um bom hook torna clara uma razão relevante para continuar.

Exemplo fraco

“Hoje vamos falar sobre marketing de conteúdo.”

Exemplo mais forte

“Se todas as semanas precisas de inventar temas novos, provavelmente ainda não tens uma estratégia de conteúdo.”

Outro exemplo:

“Há uma razão para publicares regularmente e continuares invisível para os clientes certos.”

Estas aberturas criam:

  • tensão;
  • identificação;
  • curiosidade;
  • uma promessa relevante.

Depois, o conteúdo precisa de cumprir aquilo que prometeu.

Caso contrário, conseguimos três segundos de atenção em troca de confiança.

É uma troca extraordinariamente má.

14. Contexto, formato e objetivo devem combinar

A investigação de Shahbaznezhad e colegas analisou diferentes contextos e formatos de conteúdo, distinguindo também conteúdos:

  • racionais;
  • emocionais;
  • transacionais.

Isto reforça uma ideia importante:

Não existe um formato universalmente superior.

Afirmações como:

  • “vídeo é sempre melhor”;
  • “carrosséis têm sempre mais engagement”;
  • “publicações curtas funcionam sempre melhor”;

precisam de contexto.

Melhor para quê?

Para quem?

Em que plataforma?

Com que mensagem?

14.1. Exemplos de escolha de formato

Demonstração

Se a mensagem exige mostrar um processo, o vídeo poderá ser adequado.

Processo de cinco passos

Um carrossel poderá facilitar:

  • estrutura;
  • leitura;
  • consulta posterior.

Opinião simples

Uma publicação textual poderá ser suficiente.

Testemunho

O próprio cliente em vídeo poderá ter maior força.

O formato deve servir a mensagem.

Não é necessário converter todas as ideias em vídeo apenas porque alguém anunciou:

“2026 é o ano do vídeo.”

A propósito, 2017 também foi.

E 2018.

E praticamente todos os anos seguintes.

15. Frequência: quantas vezes devemos publicar?

Esta é uma das perguntas favoritas de quem trabalha com redes sociais:

“Quantas vezes por semana?”

A resposta menos satisfatória e, frequentemente, mais correta é:

Depende.

Depende:

  • do objetivo;
  • da plataforma;
  • da audiência;
  • do tipo de conteúdo;
  • da qualidade;
  • da capacidade de produção;
  • do ciclo de decisão;
  • dos recursos disponíveis.

15.1. Mais não é automaticamente melhor

Uma empresa capaz de publicar três bons conteúdos estrategicamente coerentes poderá obter mais valor do que outra que publica duas vezes por dia apenas para cumprir uma frequência.

Consistência não significa volume máximo.

Significa criar uma presença suficientemente regular para:

  • ser reconhecida;
  • reforçar mensagens;
  • aprender;
  • manter a relação.

15.2. A frequência deve ser sustentável

Um plano deve considerar:

  • tempo;
  • equipa;
  • orçamento;
  • capacidade de gravação;
  • design;
  • escrita;
  • aprovação;
  • resposta;
  • análise.

Se o plano exige uma equipa de dez pessoas e existe apenas uma pessoa a trabalhar no marketing duas tardes por semana, temos um problema de matemática.

Não de motivação.

16. Devemos repetir conteúdos?

Sim.

Uma mensagem importante deve ser repetida.

Não é necessário inventar uma tese completamente nova todos os dias.

Para ser reconhecida por determinadas ideias, uma marca precisa de as comunicar várias vezes.

A repetição pode acontecer através de:

  • novos exemplos;
  • hooks diferentes;
  • formatos diferentes;
  • fases diferentes da jornada;
  • histórias;
  • casos;
  • analogias;
  • perguntas.

16.1. Exemplo de repetição estratégica

Imagine que a tese central é:

“Estratégia antes de conteúdo.”

Pode originar:

  • “Porque um calendário não substitui estratégia.”
  • “Porque a IA não resolve falta de direção.”
  • “Porque estar em todas as redes não é estratégico.”
  • “Porque nunca saber o que publicar é um sintoma.”
  • “Porque copiar tendências não resolve o problema.”

A ideia central repete-se.

A execução muda.

16.2. Repetição constrói associação

Se uma marca evita repetir qualquer mensagem, será difícil construir associação mental.

Além disso, o público:

  • não vê todas as publicações;
  • não recorda todas as publicações;
  • não acompanha cronologicamente tudo o que a marca publicou nos últimos três anos.

Infelizmente, a empresa não ocupa esse lugar central na vida das pessoas.

Por isso, repetir ideias importantes é necessário.

17. O papel do conteúdo produzido pela própria marca

Existem estudos que sugerem relações entre conteúdos gerados pelas empresas em redes sociais e diferentes comportamentos dos consumidores.

Kumar e os seus colegas analisaram efeitos de conteúdos produzidos pelas empresas no comportamento do cliente.

Colicev, Kumar e O’Connor estudaram também a relação entre conteúdos gerados por empresas e utilizadores e diferentes fases do funil, incluindo:

  • notoriedade;
  • satisfação;
  • consideração;
  • intenção de compra.

Isto não significa:

“Publique e as vendas aparecerão.”

Significa que:

o conteúdo pode participar no processo comercial.

Precisamente por isso, não deve ser tratado apenas como decoração de perfil.

18. Exemplo completo: clínica de fisioterapia

Imagine que uma clínica pretende gerar primeiras consultas.

Uma sequência de conteúdos poderia ser organizada assim.

Conteúdo de atração

“É normal sentir dor lombar todos os dias ao fim da tarde?”

Função

Atrair pessoas que reconhecem o sintoma.

Conteúdo de problema

“Porque ficar sentado durante horas pode contribuir para algumas dores — e porque a solução não é simplesmente encontrar a postura perfeita.”

Função

Aumentar compreensão.

Conteúdo de autoridade

“3 coisas que avaliamos quando uma dor lombar aparece repetidamente.”

Função

Demonstrar método.

Conteúdo de objeção

“Preciso de exames antes da primeira consulta?”

Função

Reduzir uma barreira à decisão.

Conteúdo de prova

Um caso educativo ou testemunho adequado.

Função

Aumentar confiança.

Conteúdo comercial

“Como funciona a primeira consulta e para quem é indicada.”

Função

Facilitar a decisão.

18.1. O que mudou?

Já não temos simplesmente:

Segunda-feira — dica

Quarta-feira — frase

Sexta-feira — promoção

Temos um percurso.

As publicações deixam de existir apenas para preencher espaços.

Passam a desempenhar funções complementares.

19. Segundo exemplo: uma pequena loja sustentável

Imagine uma loja que vende produtos reutilizáveis e alternativas sustentáveis.

Conteúdo de descoberta

“3 produtos descartáveis que provavelmente tens em casa sem pensar neles.”

Conteúdo educativo

“Quanto tempo dura realmente uma alternativa reutilizável?”

Conteúdo comparativo

“Produto descartável vs. reutilizável: quando começa a compensar?”

Conteúdo de confiança

“Como escolhemos os materiais dos produtos que vendemos.”

Conteúdo de demonstração

“Como utilizar este produto no dia a dia.”

Conteúdo comercial

“Kit inicial para quem quer reduzir descartáveis sem mudar a casa inteira.”

A estratégia não esconde o produto.

Cria contexto para que a pessoa compreenda o seu valor.

20. O erro do conteúdo criado apenas para gerar engagement

Imagine uma empresa que publica:

“Pizza ou hambúrguer?”

Recebe duzentos comentários.

Excelente engagement.

A empresa vende software de contabilidade.

O que aprendemos?

Provavelmente que muitas pessoas gostam de pizza.

É uma informação.

Talvez não seja particularmente útil para a estratégia.

20.1. Engagement sem contexto é insuficiente

O engagement deve ser analisado juntamente com:

  • quem interage;
  • porque interage;
  • que conteúdo gerou a interação;
  • e o que acontece depois.

Não é necessário criar interação apenas para aumentar um indicador.

A interação pode:

  • revelar informação;
  • aprofundar uma relação;
  • estimular participação;
  • iniciar uma conversa;
  • conduzir a uma ação.

Quando isto acontece, o engagement deixa de ser apenas um número.

Passa a ser uma parte do percurso.

21. Um sistema simples para cada publicação

Antes de criar um conteúdo para redes sociais, responda a seis perguntas.

1. Para quem é?

Que pessoa específica queremos alcançar?

Evite respostas demasiado genéricas como:

“Os nossos seguidores.”

Pergunta de apoio:

Que problema, contexto ou necessidade caracteriza esta pessoa neste momento?

2. Em que estado está?

O que essa pessoa:

  • pensa;
  • sente;
  • sabe;
  • acredita;
  • faz atualmente?

3. Qual é a mensagem?

Que única ideia queremos transmitir?

Complete:

“Se a pessoa se lembrar apenas de uma frase, quero que seja…”

4. Que função tem?

O conteúdo pretende:

  • Atrair
  • Educar
  • Posicionar
  • Construir confiança
  • Mostrar prova
  • Converter
  • Reter

5. Qual é o melhor formato?

Poderá ser:

  • vídeo;
  • carrossel;
  • imagem;
  • texto;
  • Story;
  • Live;
  • outro formato adequado à plataforma.

6. Qual é o próximo passo?

Queremos que a pessoa:

  • continue a consumir conteúdo?
  • guarde?
  • responda?
  • partilhe?
  • visite uma página?
  • envie mensagem?
  • se inscreva?
  • compre?

Se não existe qualquer resposta para estas perguntas, talvez ainda não exista uma verdadeira peça estratégica.

Existe uma ideia de publicação.

O que já é alguma coisa.

Mas não é exatamente a mesma coisa.

Exercício prático — Auditoria às últimas dez publicações

Escolha uma rede social utilizada atualmente pela sua empresa.

Analise as últimas dez publicações.

Para cada uma, classifique a função principal.

Passo 2 — Observe a distribuição

Conte quantas publicações existem em cada função.

Agora observe o equilíbrio.

Pode descobrir, por exemplo, que:

  • oito das dez publicações apenas educam;
  • sete vendem diretamente;
  • quase todas procuram alcance;
  • nenhuma demonstra prova;
  • nenhuma conduz ao passo seguinte;
  • não existe qualquer conteúdo para clientes atuais.

Passo 3 — Identifique a lacuna

Responda:

Que função está excessivamente representada?

Que função está pouco representada?

Existe alguma fase completamente ausente?

A distribuição corresponde ao objetivo atual da empresa?

Passo 4 — Analise individualmente as dez publicações

Para cada publicação, responda:

Para quem era?

Qual era a ideia principal?

Que função desempenhava?

Que ação deveria provocar?

Essa ação estava clara?

Passo 5 — Identifique o próximo conteúdo

Com base na auditoria, responda:

Que parte da jornada está mal representada?

Agora defina a próxima publicação.

Público

Estado atual

Mensagem principal

Função

Formato

Próximo passo

Este é o conteúdo que deverá criar a seguir.

Não porque seja terça-feira.

Não porque determinado formato esteja na moda.

Mas porque existe uma lacuna no percurso.

Checklist antes de publicar

Antes de aprovar uma publicação, confirme:

  • Sei para quem é.
  • Sei em que estado essa pessoa se encontra.
  • Existe uma ideia principal clara.
  • Sei que função o conteúdo desempenha.
  • O formato serve a mensagem.
  • Existe uma razão para o hook.
  • A promessa inicial é cumprida.
  • A chamada para ação é coerente.
  • Existe um próximo passo lógico.
  • O conteúdo reforça o posicionamento da marca.
  • A frequência necessária para esta estratégia é sustentável.

22. Conclusão

Criar conteúdo para redes sociais com estratégia não significa apenas:

  • publicar regularmente;
  • escolher bons formatos;
  • seguir tendências;
  • procurar engagement;
  • cumprir um calendário.

Significa compreender o trabalho que cada conteúdo deve realizar.

As redes sociais podem ajudar uma marca a:

  • ser descoberta;
  • desenvolver uma ideia;
  • aumentar compreensão;
  • construir confiança;
  • estimular interação;
  • apresentar prova;
  • promover uma oferta;
  • conduzir pessoas para outros pontos da jornada;
  • manter a relação depois da compra.

Mas cada peça precisa de ter direção.

Antes de publicar, pergunte:

Quem quero alcançar?

Que ideia quero que fique?

Que função tem este conteúdo?

Para onde quero conduzir esta pessoa depois?

Quando essas respostas existem, as redes sociais deixam de ser uma obrigação diária.

Passam a fazer parte de um sistema.

E existe uma mudança especialmente importante:

O objetivo não é alimentar o algoritmo.

O algoritmo não é o cliente.

Não paga faturas.

Não marca consultas.

Não compra produtos.

O trabalho da empresa consiste em utilizar a plataforma para aproximar pessoas reais de uma

solução relevante.

Se o algoritmo decidir ajudar, excelente.

Pode vir connosco.

Ideias-chave da aula

  • Ter uma conta numa rede social não significa ter uma estratégia.
  • As redes sociais são canais, não objetivos.
  • Cada canal deve ter uma função no percurso do cliente.
  • A mesma ideia pode ser reutilizada, mas deve ser adaptada ao contexto da plataforma.
  • Conteúdo de atração deve começar pela realidade do público.
  • Seguidores não são automaticamente potenciais clientes.
  • O conteúdo deve aprofundar progressivamente a relação.
  • Autoridade é demonstrada através de conhecimento e método, não apenas afirmada.
  • Nem todas as interações têm o mesmo valor.
  • O engagement deve possuir contexto e função.
  • As redes sociais podem conduzir para outros pontos do percurso.
  • Uma estratégia equilibrada combina atração, educação, posicionamento, confiança, prova, conversão e retenção.
  • Vender sempre é um erro; nunca apresentar a oferta também é.
  • Cada publicação deve ter uma ideia principal.
  • Um hook forte deve cumprir a promessa que cria.
  • Não existe um formato universalmente melhor.
  • A frequência deve ser adequada aos recursos e sustentável.
  • Repetição estratégica ajuda a construir posicionamento.
  • Conteúdo produzido pela empresa pode participar no processo comercial, mas não garante automaticamente vendas.
  • Engagement sem ligação aos objetivos pode tornar-se apenas uma métrica de vaidade.
  • A próxima publicação deve nascer de uma lacuna estratégica, não apenas de um espaço vazio no calendário.

Referências

Colicev, A., Kumar, A., & O’Connor, P. (2019). Modeling the relationship between firm and user generated content and the stages of the marketing funnel. International Journal of Research in Marketing, 36(1), 100–116. https://doi.org/10.1016/j.ijresmar.2018.09.005

Kumar, A., Bezawada, R., Rishika, R., Janakiraman, R., & Kannan, P. K. (2016). From social to sale: The effects of firm-generated content in social media on customer behavior. Journal of Marketing, 80(1), 7–25. https://doi.org/10.1509/jm.14.0249

Peters, K., Chen, Y., Kaplan, A. M., Ognibeni, B., & Pauwels, K. (2013). Social media metrics—A framework and guidelines for managing social media. Journal of Interactive Marketing, 27(4), 281–298. https://doi.org/10.1016/j.intmar.2013.09.007

Shahbaznezhad, H., Dolan, R., & Rashidirad, M. (2021). The role of social media content format and platform in users’ engagement behavior. Journal of Interactive Marketing, 53, 47–65. https://doi.org/10.1016/j.intmar.2020.05.001